Dólar fecha acima de R$ 5 e Bolsa cai 2% após manutenção de juros nos EUA
Investidores repercutem decisão do Fed, que não foi um consenso entre os dirigentes. Analistas ainda acompanharam informações sobre negociações entre EUA e Irã pelo fim da guerra
Investidores repercutem decisão do Fed, que não foi um consenso entre os dirigentes. Analistas ainda acompanharam informações sobre negociações entre EUA e Irã pelo fim da guerra
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29/04/2026 21:12 ‧ há 10 horas por Folhapress
Economia
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar avançou 0,39% nesta quarta-feira (29) e encerrou a sessão cotado a R$ 5,001, de volta ao patamar de R$ 5 após a aversão ao risco tomar os mercados no final da tarde.
O Fed (Federal Reserve, banco central norte-americano) manteve a taxa de juros inalterada na faixa de 3,5% e 3,75%, como amplamente esperado. A decisão, porém, surpreendeu pelo raro placar de 8x4, que não ocorria desde outubro de 1992.
A divisão interna fortaleceu o dólar globalmente, com o índice DXY, que compara a moeda a uma cesta de seis divisas fortes, marcando ganhos de 0,3%, a 98,96 pontos.
O encontro também foi marcado pela despedida do presidente Jerome Powell do cargo. Ele anunciou que irá continuar no Fed como dirigente por tempo indeterminado, citando que "eventos recentes não deixaram outra escolha" -uma referência aos embates do governo Donald Trump com a instituição.
A Bolsa, em reflexo, caiu 2,05%, a 184.750 pontos.
A dissidência de três dirigentes nesta reunião -Beth Hammack, Neel Kashkari e Logie Logan, presidentes do Fed de Cleveland, Minneapolis e Dallas, respectivamente- levantou uma bandeira amarela para o mercado.
Embora eles tenham votado a favor da manutenção, discordaram da inclusão de um "viés de afrouxamento" no comunicado, isto é, defenderam uma comunicação mais agressiva no combate à inflação ("hawkish"). Stephen Miran, diretor indicado por Trump, não surpreendeu e voltou a votar a favor de um corte de 0,25 ponto percentual.
"Com as dissidências hawkish, está claro que teremos na próxima reunião uma discussão mais robusta sobre os próximos passos da política monetária", diz Aroop Chatterjee, estrategista na Wells Fargo. "Isso dá coro à perspectiva de menos cortes esse ano, conforme os riscos inflacionários aumentaram."
Com os preços do petróleo em alta vertiginosa desde o início da guerra no Irã, autoridades do Fed já expressaram preocupação com a possibilidade do choque se traduzir em uma inflação mais alta nos próximos meses. Isso levaria à manutenção dos juros por mais tempo -ou, no cenário mais extremo, à retomada do ciclo de aperto monetário.
A guerra foi citada pelo Fed no comunicado oficial. "Os acontecimentos no Oriente Médio contribuem para um alto nível de incerteza quanto às perspectivas econômicas. O Comitê está atento aos riscos para ambos os lados de seu duplo mandato [máximo emprego e inflação de 2% no longo prazo]."
O petróleo voltou a tocar o patamar de US$ 119 o barril nesta sessão, em meio às negociações estagnadas entre EUA e Irã e o contínuo bloqueio do Estreito de Hormuz, via marítima responsável por um quinto do transporte global de petróleo. Antes da campanha de bombardeio israelense-americana contra o Irã, a cotação era de cerca de US$ 70.
O repasse já atinge o bolso de consumidores norte-americanos, que viram a gasolina subir para a média de US$ 4 o galão (R$ 20 por três litros). A expectativa é que os próximos dados de inflação, sobretudo o PCE (Índice de Preços para Despesas com Consumo Pessoal, métrica favorita do Fed para avaliar a alta de preços), já tragam reflexos dessa disparada.
Por enquanto, os dados recentes continuam a mostrar que a economia dos Estados Unidos está sólida. "Tanto o comunicado quanto a fala de Powell na entrevista coletiva após a reunião reforçaram que o Fed está em uma posição confortável para esperar novos dados antes de tomar uma nova decisão, e Powell disse que mudanças no guidance [orientação sobre passos futuros] gerariam ruídos que o comitê preferiu evitar", diz Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
O mercado vê poucas chances do Fed reduzir a taxa de juros neste ano. E isso a despeito da provável pressão sobre o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, a partir de junho, caso seu nome seja aprovado entre os parlamentares dos EUA.
Ele foi escolhido por Donald Trump em meio à cruzada do presidente por juros mais baixos. Powell, nomeado por Trump no primeiro mandato, resistiu à pressão do republicano no último ano, mantendo as decisões de política monetária ancoradas nos dados econômicos.
Juros mais altos nos EUA costumam ser uma má notícia para os mercados globais. Como a economia norte-americana é a maior do mundo, a renda fixa de lá é lida como um investimento praticamente livre de risco, o que tira a atratividade de outros ativos mais arriscados.
"Isso tende a sustentar um dólar relativamente mais forte e aumenta a pressão sobre ativos de risco, principalmente empresas de tecnologia e companhias mais dependentes de financiamento para crescimento, fluxo de caixa e novos investimentos", diz Edson Mendes, sócio-fundador da Private Investimentos.
"Para o investidor, o impacto é uma leitura de maior seletividade. Juros norte-americanos elevados reduzem o apetite global por risco, pressionam bolsas, encarecem o custo de capital e tornam os títulos de renda fixa dos Estados Unidos mais competitivos frente a outros ativos."
O Copom (Comitê de Política Monetária) anunciou na tarde desta quarta-feira (29), o corte de 0,25 ponto percentual, a 14,5% ao ano.
Na avaliação de economistas ouvidos pela Folha de S. Paulo, o comportamento da inflação corrente, a piora nas expectativas e a alta nos preços do petróleo tornam o ambiente mais desafiador e exigem maior cautela por parte do comitê.
Na prática, isso deve se traduzir em um ritmo de cortes de juros mais lento ao longo do ano e um ciclo de queda da Selic mais curto do que o projetado pelos agentes econômicos antes da guerra.
Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú Unibanco, diz que a piora significativa das expectativas de inflação até 2028 reforça a avaliação de que haverá menos espaço para corte de juros do que se imaginava antes da guerra. O banco revisou para cima sua projeção para a taxa Selic ao término do ciclo, de 12,25% para 13%.
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